sábado, 16 de janeiro de 2010

O PÔR-DO-SOL *



A noite estava fria mas as estrelas aqueciam-nos por dentro, estava escuro mas claro ao mesmo tempo, era como se o mundo acabasse ali naquele preciso momento. Ouviam-se os cães, os gatos, os carros e aquele vento medonho a passar entre os ramos daquelas árvores secas. A lua está mais vermelha do que alguma vez estará. Parece que me estou a aproximar dele, mas ele foge. Não consigo suportar a dor que sinto em mim, sinto as mãos frias e a tremer não será do frio mas sim do medo, sinto a cara quente mas não é do calor mas sim das lágrimas que caiem dos meus olhos como se não tivessem fim, o pior é que não são de alegria mas sim de tristeza e de insegurança. Arrepio-me a cada palavra que esta caneta escreve, sinto a garganta seca, tento beber mas a água é como lava de um vulcão prestes a explodir. Sinto-o perto mas longe, cada palavra saída dos seus lindos lábios é como as notas de uma música que a orquestra toca. Fazem-me sentir feliz mas triste, talvez por não lhe puder tocar ou apenas por não conseguir sentir o eu perfume juntar-se com o meu e formar um aroma maravilhoso que jamais será criado. A minha pele sente uma brisa que me faz sentir frio por estar a transpirar a cada palavra que me vem a cabeça. Eu não o quero deixar ir mas existe alguma coisa que me bloqueia a cada letra que ele diz. Será o amor que sinto por ele ou o medo de o perder. Esta noite nunca vai ter fim, sinto que sim, jamais a esquecerei, as estrelas juntam-se e formam o seu rosto, sinto a sua boca delicada a encostar-se ao meu ouvido e dizer que não me vai deixar mas olho para o lado e ele não está, há qualquer bicho a pairar no ar talvez seja mais feliz que eu. O meu coração deslocar-se-á quando assistir ao sol nascer porque talvez o pesadelo terá acabado, ainda falta muito e cada vez sinto-o mais longe de mim. Vejo um lobo numa montanha a uivar ao luar, é lindo, aquela luz intensa da lua no seu pêlo faz com que o mundo pare, era isso que eu queria parar o tempo. Mudar de século ou talvez de ano, mudar de mês ou talvez de semana, mudar de dia ou talvez de hora, mudar de minuto ou talvez de segundo, só para sentir o calor da tua pele, para sentir esse camisa amachucada a aproximar-se de mim, ou talvez apenas não dizer que o amo mas sim que está no meu coração até aquele lobo deixar de uivar, já lá vão duas páginas da minha vida escritas em papel fraco num livro insignificante que talvez servirá para alguém que precise. Eu tenho medo não de deixar de respirar, nem medo que me pare o coração, mas sim de morrer antes de dizer o que sinto por ele. A tinta desta caneta é como a minha vida, irá acabar a qualquer momento sem avisar, será de uma maneira silenciosa e calma ou barulhenta e com muita dor. Tenho medo que ela acabe antes de mim. Sinto uma voz na minha cabeça não é dele senão estaria frágil demais para puder sentir qualquer dor. É a voz de um desconhecido mas transmite-me confiança, é a voz que precisava de ouvir neste momento. É como se a minha barriga fosse um oceano cheio de barcos. Esta voz é linda, delicada. Neste momento cada lágrima que desce o meu rosto é por essa pessoa, e agora o lobo que uivava ao luar parece feliz e o seu pêlo brilha mais do que nunca brilhou. O vento não parece medonho e as árvores não são tão secas como pareciam. A lua ficara branca de repente e as estrelas fazem os meus olhos brilhar como se voltasse a ser criança. Ele vai voltar eu sei que sim, sinto-o muito próximo de mim e sei que o pôr-do-sol estará para breve.

Joana Pereira *
11 de Agosto de 2009 01h20m

O COMBOIO *


Esta manhã acordei bem, acordei feliz, talvez tenha sonhado contigo mas, o que será esta gota de água a cair do meu rosto? Nunca ninguém mereceu que eu chorasse por sua culpa, tu também não mereces mas, talvez o respeito que sinto, o carinho, e todo o resto que sinto mereça isto e muito mais. Existe qualquer coisa que me prende a ti não será amor com certeza mas, eu não te consigo esquecer. Sinto um enorme impulso incontrolável de te beijar e de te sentir, mas tu não queres o mesmo, tenho medo que me rejeites, por isso, prefiro que penses que sou uma insignificante folha numa árvore, ou uma gota no mar. Assim, posso apenas admirar-te, olhar-te nos olhos sem saberes, tocar-te sem sentires, beijar-te sem dares conta ou até mesmo dizer-te adeus e tu sorrires. Tudo isto apenas para ver os teus lindos olhos. Para sentir o calor das tuas mãos. Para provar os teus doces lábios e ao menos para pensar nem que seja um segundo na minha vida que és só meu.
Não te posso contar por isso implicaria estragar tudo o que construímos até agora, que pode não ser muito, mas para mim significa mais do que qualquer coisa na vida, prefiro fechar-me no meio de quatro paredes sozinha para não ter que te contar isto. Mas via chegar a altura em que me vou sentir fraca, sem vontade para continuar. Vou encontrar um beco sem saída, e aí, nessa altura, vou chamar por ti, na esperança que estás lá a minha espera, mas isso não vai acontecer porque a árvore secou, as folhas caíram, e eu já não estou mais lá e nem regada com o teu amor consigo sobreviver e se te contasse? Não tenho nada a perder. Mas também para ti é indiferente ouvires o que tenho para te dizer porque estás de mão dada. Porque é que não largas a mão? Eu preciso de ti, não percebes? Não vês que o fogo passou o monte e está a aproximar-se das casas? Não, não deites água… não ponhas a mão na ferida para não se ver, porque continuarás a ter dores.
A árvore secou, mas… o mar não. Ainda tenho essa oportunidade. Mas, para ser feliz ou para mostrar o que sinto? Será que se te contar sou feliz? Ou sou feliz se te contar?
Aqui estão duas perguntas compostas por palavras que contem letras do alfabeto com um ponto de interrogação no fim, que nem tu nem eu jamais saberemos responder, porque tu não sabes e eu não te quero contar. Não somos nós que traçamos o nosso destino, ele já está traçado.
E se pelo caminho encontrarmos uma passagem de nível, sentamo-nos, porque ele terá de acabar…




Joana Pereira *

23 De Agosto de 2009 03h14m